Há um ensaio (1) em que Ricardo Piglia ousa inventar uma possível sexta proposta para o projeto inconcluso de Italo Calvino, que morreu em 1985 deixando escritas apenas cinco das Seis propostas para o próximo milênio, série de palestras que daria em Harvard e nas quais identifica seis qualidades que, segundo ele, apenas a literatura pode salvar: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência.

Em vez de escrever sobre a consistência, a proposta ausente, Piglia toma um desvio em direção à margem. Qual seria essa proposta se fosse escrita em Buenos Aires, se fosse escrita a partir deste subúrbio do mundo? Ele acredita que o lugar marginal da Argentina (e da América Latina, por consequência) nos dá uma certa vantagem, porque nos confronta com os limites da literatura.

Estamos acostumados a pensar o limite como ponto de chegada, a fronteira onde algo termina, como sugere a imagem da terra plana medieval (agora também contemporânea!). Além da borda está o abismo, habitado pelas bestas. Só um olhar desconfiado é capaz de inverter o sinal negativo dessa percepção. O crítico indiano Homi K. Bhabha, por exemplo, descreve o limite não como fim da linha, mas como ponto de partida. O trecho a seguir tem uma construção intrincada, mas deixo aqui como desafio:

A significação mais ampla da condição pós-moderna reside na consciência de que os “limites” epistemológicos daquelas ideias etnocêntricas são também as fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias dissonantes, até dissidentes […] É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente […].
— Homi K. Bhabha, O Local da Cultura

O limite do eu é o outro.

Em chave parecida, mas olhando para articulações literárias, Piglia explora no ensaio um pequeno movimento narrativo utilizado por Rodolfo Walsh na carta que escreve à filha Vicki quando ela é morta pelos agentes da ditadura militar argentina.

Diz Walsh: Hoje no trem um homem dizia: “Sofro muito. Queria deitar e dormir e acordar daqui a um ano”. Falava por ele, mas também por mim.

Um movimento mínimo, um detalhe que para muitos pode soar insignificante. Mas é desse pequeno gesto que Piglia retira um significado estrondoso:

Me parece que esse movimento, esse deslocamento, dar a palavra a outro que fala de sua dor, um desconhecido num trem, um desconhecido que está aí, que diz “Sofro, queria acordar daqui a um ano”, esse deslocamento, quase uma elipse, uma pequena tomada de distância com respeito ao que se está tratando de dizer, é quase uma metáfora: alguém fala por ele e expressa a dor de um modo sóbrio e direto e muito comovente.
— Ricardo Piglia, Uma proposta para o novo milênio

A linguagem como ponte que reúne enquanto passagem que atravessa, como Bhabha resgata de Martin Heidegger.

Vejamos: não se trata de “dar a voz”, na acepção corriqueira da expressão, que supõe um gesto benevolente de um sujeito superior, com voz, a alguém que é desprovido de fala. O gesto, o deslocamento de que fala Piglia, é de uma ordem mais sutil, não-hierárquica: Eu percebo que um Outro, um desconhecido, fala por mim. O sinal aqui é de identificação, igualdade.

A verdade tem a estrutura de uma ficção em que outro fala. Fazer na linguagem um lugar para que o outro possa falar.— Ricardo Piglia, Uma proposta para o novo milênio

Fazer na linguagem, construir um lugar, um espaço na linguagem: ampliá-la, borrar os limites. Eu é um outro, diz Rimbaud, e Piglia, mais do que ninguém, sabe disso. Não à toa, deixou uma obra imensa em que um outro (que é e não é ele mesmo) fala pelo autor (que é e não é ele mesmo).

O limite não está fora da linguagem, ele é o seu fora
— Gilles Deleuze, Crítica e Clínica


(1) Uma proposta para o novo milênio, publicado pelo coletivo Chão da Feira em 2012.

* Imagem: Gravura de Flammarion. Fonte: Wikipedia.

Publicado por Paulo Fehlauer

Escritor & fotógrafo & artista visual, mestrando em estudos literários na Universidade Federal de São Paulo.

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