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Recomeço

Uma ilha em um lago em uma ilha em um lago em uma ilha.

Em fevereiro de 2003, comecei um blog, o Na Rua, que mantive atualizado até 2009. Muitos começos se encontravam naquele blog: o jornalismo, a fotografia, alguma militância. Gestos que esboçavam alguma autoria. Mas o começo não está necessariamente na origem. Um começo não passa de um ponto arbitrário na espiral de um vórtex, para usar a palavra de Walter Benjamin 1.

Em 2011, pesquisando para um projeto do Coletivo Garapa, descobri em Milton Santos 2 a palavra palimpsesto, descrevendo a sobreposição de épocas que se pode ler nas fachadas da cidade. Em sentido literal, essa palavra estranha designa um pergaminho cujo texto original foi apagado para dar lugar a outro, mas que nesse apagamento manteve resquícios daquele sob a nova escritura. Cidade-linguagem.

Alguns dias atrás, encontrei na web uma notícia sobre o Lago Taal, nas Filipinas. Dentro do lago há um vulcão em cuja cratera formou-se um lago, que por sua vez tem no centro uma pequena ilha — tudo isso dentro da ilha de Luzon, no arquipélago das Filipinas. Uma ilha em um lago em uma ilha em um lago em uma ilha. Assim como um começo não é necessariamente uma origem, penso na libélula pousada sobre uma folha que flutua sobre uma poça d’água na pequena ilha vulcânica. 

Lago Taal. Fonte: NASA.

Hoje nem começo, nem ilha. Palimpsesto.

A semelhança entre dois seres, a que estamos habituados e com que nos ocupamos em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso da semelhança mais profunda que reina no mundo dos sonhos, em que os acontecimentos não aparecem jamais como idênticos, mas sempre como semelhantes: impenetravelmente semelhantes entre si. 3

— Walter Benjamin, A imagem de Proust
  1. Walter Benjamin, Autobiographische Schriften, citado por Sigrid Weigel em artigo na revista Critical Inquiry[]
  2. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EdUSP, 2002.[]
  3. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.[]

Por Paulo Fehlauer

Escritor & pesquisador & artista visual, mestre em estudos literários pela Universidade Federal de São Paulo. Membro do Coletivo Garapa.

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