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Um postal para Ivan, o cosmonauta

“A atmosfera na embarcação está limpa!”


привет, дорогой Иван! 1 Saudações, caro Ivan (e aos seus recém-chegados camaradas ianques)! Acabo de vê-los passar acima da Terra, jovem cosmonauta, numa estrela brilhante e veloz apressada por entre os helicópteros noturnos que sobrevoam esta metrópole.

O sol nasce e se põe na Estação Espacial Internacional dezesseis vezes a cada dia, você diz. Aqui, no andar de baixo, flutuando sobre um solo fluido, eu ainda me pergunto se será realmente seguro romper o umbral e sair para molhar os pés (mesmo que, de Cabo Canaveral a Nova York do Maranhão ou Moscou, Idaho, o vuco-vuco já esteja autorizado, apesar de tudo). Há poucos dias eu os vi com máscaras e óculos protetores enquanto coletavam amostras de ar diante da escotilha aberta de um veículo de carga japonês. Атмосфера в «грузовике» чистая! 2 A atmosfera na “embarcação” está limpa!, você disse — limpa: o que significa isso?

Agora você se prepara para descer da sua embarcação e caminhar no deserto espacial pela primeira vez; enquanto isso, aqui embaixo, eu ainda me pergunto se, ao cruzar o hálito de um transeunte às quinze e trinta e sete, devo conter a respiração ou não? Estará limpa como a sua a nossa atmosfera, caro Ivan? Enquanto você faz um sinal positivo para a câmera, eu me pergunto se muito em breve as máscaras e luvas cirúrgicas não se converterão em artigos obrigatórios e de moda como as roupas íntimas. Ou se pisar o asfalto (ou a grama molhada) voltará um dia a ser um gesto tão trivial quanto caminhar no espaço. São perguntas que me vêm à cabeça cada vez que você cruza o céu escuro da Lua Nova sobre a canoa na qual eu mesmo cruzo agora um imenso deserto de água.

До свидания!3 Até logo, cosmonauta!

Maria Fernanda Lopes. Sem título (2020). Carvão sobre papel com intervenção digital.

Este trabalho é resultado de um diálogo criativo entre mim e a artista plástica Maria Fernanda Lopes, publicado originalmente em espanhol na Revista POYLatam. O trabalho consiste na crônica “Um postal para Ivan, o cosmonauta”, texto ficcional criado no dia em que avistei a Estação Espacial Internacional no céu de SP, e no desenho “Sem título” (2020), feito especialmente para esse texto, com carvão vegetal e intervenção digital. Ambos foram realizados remotamente durante a quarentena devido à pandemia da COVID-19. Dedicado a Ivan Vagner, cosmonauta russo atualmente em sua primeira missão na Estação Espacial.

  1. Agradeço ao oráculo pela tradução. A pronúncia deve soar como ¡Privet, dorogoy Ivan![]
  2. Se diz ¡Atmosfera v «gruzovike» chistaya![]
  3. Do svidaniya![]

Por Paulo Fehlauer

Escritor & pesquisador & artista visual, mestre em estudos literários pela Universidade Federal de São Paulo. Membro do Coletivo Garapa.

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