Entrevista – Agência de Notícias do Acre

Você sempre teve certeza que essa era a profissão que queria?

No colegial, tinha certeza que queria ser engenheiro. Fui estudar em Campinas, mas logo percebi que não era para mim. Mudei para o jornalismo, e para São Paulo, e aí sim estava em casa. No meio do caminho, descobri a fotografia. Tranquei a matrícula na faculdade, juntei as economias e fui para Nova York, onde fiquei por dois anos. Lá, entre pratos lavados e mesas servidas, fiz alguns cursos e trabalhei como monitor no International Center of Photography, dando aulas de fotografia PB para crianças e adolescentes do Bronx. Também trabalhei como assistente dos fotógrafos Marc Asnin e Ed Kashi. Com o Ed, participei de um projeto educativo da National Geographic. Nesse momento, me senti pronto para voltar ao Brasil. Chegando em casa, comecei a trabalhar como freelance na Folha de São Paulo, e fundei o coletivo Garapa (www.garapa.org), inspirado pelas experiências que tive nos EUA.

Acho que a fotografia foi uma resposta que encontrei à insuficiência, para mim, do texto escrito, por mais que hoje não pense mais exatamente assim. Sentia que as minhas palavras precisavam ser visuais. A fotografia foi essa primeira resposta, e a internet o veículo. Hoje quero ir mais além, comecei a brincar com áudio e vídeo, mas o objetivo sempre foi o mesmo: contar histórias, compartilhar um pouco da minha visão.

A fotografia influência?

A fotografia tem poder sim. Já acabou com guerras, denuncia atrocidades, marca momentos na História. Já desisti da pretensão de provocar uma revolução, ou mudar o mundo com uma imagem. Prefiro, hoje, contar pequenas histórias, trabalhar nesse nosso microcosmo cotidiano, e tentar influenciar o mundo à minha volta (e esse “à minha volta” tem mais a ver com relacionamento do que com a geografia). Não pretendo convencer ninguém com o meu trabalho, mas fazer com que as histórias que conto sejam vistas e ouvidas. O que vier daí não depende mais de mim.

Como avalia o fotojornalismo hoje?

Como todas as formas de comunicação, o fotojornalismo passa por um momento de transformações profundas. Ao contrário do que muitos apregoam, vejo todo esse processo com muito otimismo. Até pouco tempo atrás, havia uma distinção muito clara entre o profissional e o amador, o primeiro geralmente se julgando superior. Nunca se fotografou tanto quanto hoje, e a imagem tem um papel cada vez maior na nossa percepção do mundo.

Então, estamos nesse período um tanto confuso, mas que vejo como bastante oportuno. Por um lado, temos o jornalismo tradicional lutando com todas as forças para manter uma estrutura que lhe é favorável – às custas, vale lembrar, de baixos salários e cada vez menos garantias trabalhistas. Por outro, uma multidão de pessoas escrevendo, gravando, fotografando, contando histórias de pontos-de-vista talvez nunca antes imaginados. O momento do fotojornalismo é de renovação, portanto. Descobrir como sobreviver nesse momento faz parte do desafio.

Uma coisa que gostaria de adicionar: a fotografia é um processo tecnológico por natureza. Quando ela nasceu, os pintores reclamaram, e depois até a utilizaram. A fotografia foi mudando junto com a tecnologia. O fotojornalismo como o conhecemos hoje só foi possível porque as câmeras diminuíram de tamanho. Penso até que a tal “revolução” já passou, e que já estamos do outro lado.

Qual o desafio do fotógrafo de hoje diante da internet? E quais as vantagens?

Como já apontei, vejo toda essa “revolução” com muito otimismo. Hoje há muito mais espaço para o fotojornalista independente do que havia alguns anos atrás. No futuro, acho que esse espaço será ainda maior. Falta ainda as empresas de jornalismo brasileiras, jornais e revistas, realmente acordarem para a internet e investirem de verdade, como acontece lá fora. Ou isso acontece, ou eles vão perder o bonde, e vai ser difícil tirar o atraso. Na Garapa, o coletivo de que faço parte, já sofremos com isso. Tentamos propor vários projetos baseados na internet, mas é sempre difícil convencê-los. É a maldição do departamento comercial, que hoje tem total domínio sobre o editorial. Mas, para a criação e a exposição, o momento que vivemos é único, e as possibilidades de experimentação, inúmeras.

* Realizada por Andréa Zilio para a Agência de Notícias do Acre: http://www.agencia.ac.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=6564&Itemid=26

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